Bengala pesada
Vejo chegar um corpo cansado
Pelo peso de uma bengala vergado
Ao átrio do centro de dia!
Há nos seus lábios um profundo anceio.
De falar a um filho que não veio,
Dar-lhe um beijo ou um pouco de companhia!..
Senta-se nos degraus da história,
Tenta recordar o que a vida lhe deu
Desde a idade de garoto!...
Acaricia em vão o corrimão da memória,
Já não se lembra do que aconteceu
Tudo guardou em saco roto...
Sente dos olhos as pálpebras rizadas,
As horas passam por ele em fieiro,
As histórias que conta são aveladas,
Ele, a contá-las, não é o primeiro!
Um par de olhos desvanecidos
Pelas labaredas do tempo queimados,
Pensamentos num monte de cinzas sumidos,
Memórias guardadas em livros fechados.
Cria labirintos onde a vida vagueia,
Limpando os medos dos recantos escondidos,
Esperando que chegue a última ceia,
Para dar contas ao mestre dos talentos geridos...
João Manuel Zagalo